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Mulheres vítimas de violência concluem curso de gastronomia

No total, 18 mulheres concluíram o curso de 60 horas/aula
Mayla Miranda | Setas-MT

O curso será totalmente finalizado com a publicação de um livro de receitas preparadas pelas participantes - Foto por: Jana Pessôa/ Setas-MT
O curso será totalmente finalizado com a publicação de um livro de receitas preparadas pelas participantes
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Mulheres que já foram vítimas de violência concluíram esta semana o curso “Possibilidades Gastronômica com a carne suína”, que abordou cortes e arte no preparo da carne suína, além de matemática básica, formação de custo e atitudes que diferenciam o profissional no mercado de trabalho.

O projeto foi iniciado no dia 10 de novembro, resultado da parceria entre Secretaria de Estado de Trabalho e Assistência Social (Setas), Núcleo de Ações Voluntárias do Estado (NAV), Polícia Militar (PM), Rede Cidadã, Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) e a Associação dos Criadores de Suínos de Mato Grosso (Acrismat).

No total, 18 mulheres da região do bairro Tijucal, em Cuiabá, concluíram a modalidade de 60 horas/aula. O curso será totalmente finalizado com a publicação de um livro de receitas preparadas pelas participantes, cuja seleção foi realizada pelo programa Rede Cidadã.

Conforme o titular da Setas, Valdiney de Arruda, a ação consegue atender uma parcela importante da população que precisa de atenção e assistência do Executivo. “A Setas tem como missão atender todos os cidadãos que precisam de alguma assistência e que buscam por oportunidades, e estas mulheres necessitam de um olhar diferenciado”.

Para o presidente da Acrismat, Raulino Teixeira, a participação da entidade no projeto é uma honra. “Participar do projeto que está dando oportunidade para essas mulheres que, em muitos casos, estão em vulnerabilidade social, é uma grande honra. E a suinocultura tem muito espaço para crescer e contribuir para o nosso estado”.

O presidente do Sistema Fecomércio-Sesc/Senac-MT, Hermes Martins da Cunha, acrescentou que é papel do Senac levar conhecimento as pessoas. “Trabalhar em conjunto para fazer a diferença na vida dessas mulheres é gratificante. E o curso representou uma grande chance para elas terem maior liberdade para sustentar suas famílias e uma maneira de incentivar a autonomia e o empreendedorismo gastronômico”.

De acordo com o chefe de cozinha e instrutor do Senac André Vitaliano Ferreira Coelho, a escolha da carne suína como ingrediente principal das receitas vai ao encontro da atual crise econômica do país. “Nós pretendíamos mostrar a estas mulheres que elas tinham meios para produzir um material de alto nível e com valores acessíveis. No curso, elas aprenderam técnicas profissionais de manuseio de alimentos e o principal e o mais difícil: a constituição dos valores aplicados para a comercialização”.

Histórias

“Um dia após ter me agredido muito, ele simplesmente sumiu e até hoje não tenho mais nenhuma notícia do seu paradeiro. Isso já faz quatro anos”. Esta é apenas uma pequena parte da história da Marli Aparecida Mariano, 54 anos, mãe de duas filhas, que foi casada por 28 anos e, de repente, se viu sozinha e sem condições de se manter financeiramente.

Situações graves contra as mulheres ainda são frequentes. Com 22 anos de casamento, Adenilze Siqueira Santos, mãe de dois filhos, sendo um deles com deficiência intelectual, se viu moradora de rua após a prisão do marido por assassinato durante uma briga de bar.  “Ele tinha um gênio muito difícil, nunca me deixou trabalhar e como precisava cuidar do meu filho também não ia contra ele. E quando ele foi preso não tive como me sustentar. Hoje, eu e os meus filhos moramos em uma casa de favor e somos sustentados pelo auxílio doença e parte do salário da minha filha”.

Adenilze conta que sempre gostou de cozinhar, mas nunca havia tido a oportunidade de aprender o ofício.  “Eu cozinho a vida toda, mas este curso me mostrou muitas coisas novas e me possibilitou novos horizontes. Fico muito feliz em ter tido esta oportunidade”.

Apesar de a maioria das histórias destas mulheres fazer parte da extrema violência, dona Benedita de Melo afirma que a superação dignifica ainda mais a força da mulher. Mãe de seis filhos e separada há 15 anos, ela trabalhou como faxineira e vendedora de cocada para garantir uma vida digna à família.

“Meu marido bebia muito e quando chegava em casa era bastante violento. Mesmo com tantos filhos tive coragem de deixá-lo. Hoje, tenho orgulho de dizer que todos os meus filhos estudaram e  se formaram na faculdade. Minha filha mais nova está terminando a faculdade de direito e eu dei muito duro para isso. Agora que já estou com mais idade tenho a esperança trabalhar mais com a cabeça e menos com o corpo”, afirmou Benedita, animada e com sorriso nos lábios.